DETEÇÃO DE SUBSTÂNCIAS

A luta contra a dopagem é, e será sempre, um processo em curso - constantemente surgem novas substâncias ilícitas e métodos proibidos com potencial para aumentar o rendimento desportivo, que comprometem a saúde dos que a essas substâncias e métodos recorrem, e que pervertem a verdade desportiva.

A deteção de novas substâncias e métodos dopantes é assim uma tarefa fundamental para garantir a eficácia e eficiência do Programa Mundial Antidopagem. Esta tarefa exige um esforço concertado entre a Agência Mundial Antidopagem, as organizações nacionais antidopagem e outros parceiros relevantes.

O acordo celebrado entre a Agência Mundial Antidopagem e a Associação Mundial da Industria Farmacêutica representa um passo fundamental para que os laboratórios antidopagem possam detetar substâncias que ainda estão em fase de desenvolvimento, antes da sua entrada no mercado. A cooperação entre a Roche e a Agência Mundial Antidopagem, por exemplo, fez com que a reanálise das amostras dos Jogos Olímpicos de Pequim (2008) conduzisse à desqualificação de vários medalhados olímpicos.

A ADoP tem colaborado com a comunidade científica, bem como com a Agência Mundial Antidopagem e outras organizações antidopagem, na investigação de novos métodos de deteção de substâncias e métodos proibidos.

Pode consultar abaixo alguns dos resultados dessa colaboração.


FGF-1 (Fator de Crescimento Fibroblástico)

O uso de fatores de crescimento é proibido nos termos do Código Mundial Antidopagem da Agência Mundial Antidopagem (AMA). Nos últimos anos, o fator de crescimento insulina-like (IGF-1) tem estado sujeito a especial atenção pelas suas propriedades potenciadoras do rendimento desportivo e pelo seu potencial para uso ilícito no desporto. Para os outros fatores de crescimento, não era conhecida a prevalência do seu uso abusivo no desporto, nem existiam métodos analíticos nos laboratórios antidopagem para a deteção do seu uso ilícito.
  
A ADoP descobriu que o fator de crescimento FGF-1 estava disponível para venda ilícita na internet, embora não estivesse ainda sequer autorizada a sua utilização para fins terapêuticos, tendo partilhado essa informação com os Prof. Drs. Hans Geyer e Mario Thevis, do Laboratório Antidopagem de Colónia.

Os Serviços Aduaneiros da Alemanha, informados desse facto, apreenderam uma encomenda contendo a substância em causa, o que veio confirmar os receios quanto à comercialização ilícita deste fator de crescimento e enfatizar a necessidade de se desenvolver um método que permitisse aos laboratórios antidopagem acreditados pela Agência Mundial Antidopagem proceder à sua deteção.

Aqueles investigadores, através da Fundação Manfred Donike, propuseram ao Laboratório de Análises de Dopagem (LAD) e à ADoP a celebração de protocolo de cooperação para o financiamento do desenvolvimento de um método de deteção para este fator de crescimento.

Esta cooperação deu lugar à publicação de um artigo científico que valida um método de deteção desta substância e que abriu o caminho igualmente para a deteção de uma panóplia muito alargada de outros fatores de crescimento. Pode consultar o referido artigo abaixo.


Proteases – 1.º caso a nível mundial de deteção de manipulação de amostras de urina com proteases

As proteases são enzimas que têm a capacidade de destruir as proteínas. A eritropoietina (EPO), substância ilícita utilizada principalmente em desportos de endurance, é uma glicoproteína que pode, por isso ser, destruída pela introdução de uma protease na urina do praticante desportivo, impedindo assim a sua deteção pelos laboratórios antidopagem.

A suspeita de utilização de proteases para manipulação de amostras de urina de controlos de dopagem existia já há vários anos, mas nunca tinha sido comprovado nenhum caso, a nível mundial.

No dia 19 de Maio de 2008, a Polícia Judiciária, através da Direcção Central de Investigação e da Criminalidade Económica e Financeira, e com a colaboração do ex-CNAD, realizou uma ação de fiscalização que incidiu sobre os praticantes desportivos, direção desportiva e instalações de uma das equipas de ciclismo de alta competição da zona norte do país, a LA MSS, após a morte súbita em competição de um ciclista daquela equipa.

Nessa ação foram realizadas diversas buscas que resultaram na apreensão de várias substâncias, medicamentos e materiais e instrumentos de uso clínico destinados à realização de transfusões sanguíneas. Foram também recolhidas evidências que levantavam fortes suspeitas quanto ao recurso a proteases para manipular amostras de urina.

Dois dos ciclistas da equipa em causa não estavam nos domicílios fornecidos pela Federação Portuguesa de Ciclismo à Polícia Judiciária no momento em que foi realizada a supracitada busca, tendo sido notificados por via telefónica por esta entidade para se apresentarem.

Foram então submetidos, ainda durante a busca, a um controlo de dopagem fora de competição, realizado por um médico responsável pelos controlos de dopagem (MRCD) do ex-CNAD, controlo de dopagem que previa também a deteção de EPO. No entanto, e pelas razões supracitadas, os ciclistas em causa não foram acompanhados em permanência pelo referido médico desde a comunicação inicial que receberam da Polícia Judiciária até ao momento do controlo.

O caso foi despoletado pela receção dos relatórios analíticos proveniente do Laboratório Antidopagem de Madrid, para onde as amostras tinham sido enviadas, uma vez que o LAD não dispunha ainda da tecnologia necessária para a deteção de EPO.

No Laboratório de Madrid, verificou-se que nas amostras de urina não era possível realizar o teste de urina ativa, pois a urina parecia ter uma substância que destruía a eritropoietina recombinante utilizada para a realização desse teste. O ex-CNAD decidiu enviar o remanescente das referidas amostras de urina para o Laboratório Antidopagem de Colónia, dado que era o único laboratório a nível mundial que na altura tinha capacidade analítica para realizar a deteção de proteases.

Este laboratório detetou a presença da protease Bacillolysin, através de um método de electróforese das proteínas (SDS PAGE), associado a LC/MS/MS e demonstrou que as amostras de urina destruíram imediatamente duas proteínas que foram introduzidas nas mesmas (mioglobina e hormona do crescimento).

Desse modo, e através de uma estratégia de cooperação que envolveu o ex-CNAD, a Polícia Judiciária, o Laboratorio del Control de Dopage de Madrid, o Laboratório Antidopagem de Colónia, a Federação Portuguesa de Ciclismo e a Agência Mundial Antidopagem, foi possível estabelecer e sancionar as primeiras violações de norma antidopagem, a nível mundial, originadas pela manipulação de amostras de urina por proteases.

A metodologia de deteção das proteases, desenvolvida no Laboratório Antidopagem de Colónia e o caso em apreço deram lugar à publicação de dois artigos científicos, que pode consultar abaixo.

Nas buscas realizadas pela Polícia Judiciária à equipa LA MSS, foram encontrados uns pós estranhos, embrulhados em papel de alumínio, na casa de dois dos ciclistas da equipa, o que levantou a suspeita de que aqueles pós seriam proteases. Esta suspeita veio a ser confirmada pelo Laboratório Antidopagem de Colónia que, em ambos os casos, estabeleceu que os pós eram na realidade proteases, sendo uma delas, a mais estável, idêntica à que foi encontrada na urina de outros dois ciclistas da mesma equipa, como referido acima.

Alguns meses mais tarde, a Polícia Judiciária, em cooperação com as entidades de investigação criminal espanholas, acompanhou a realização de uma busca ao domicílio do médico da equipa LA MSS, tendo sido encontrados pós, também embrulhados em papel de alumínio, que o Laboratório Antidopagem de Colónia veio a identificar como proteases, idênticas às encontradas nos domicílios de dois dos ciclistas da equipa, sendo uma delas também idêntica à encontrada na urina dos dois ciclistas da mesma equipa que vieram a ser sancionados.